“O Guardião das Lendas: Protetor”

Mais um ano que participei no concurso “Novos Talentos FNAC”… e mais uma vez vocês é que levam o prémio. Apresento-vos o “Protetor”, um texto praticamente todo escrito na primeira pessoa, como se estivéssemos a ouvir esta história contada pelo espírito cujo trabalho é ajudar as almas perdidas a encontrar o caminho para o Além.
Boa leitura!

Eu sempre vivi sozinho. Caminhava solitário por entre as campas deles, de pelos pretos banhados pelo sol e escovados pelo vento. Essa era a minha rotina. Nunca precisei dormir nem comer, por isso, tudo o que eu fazia era andar por aqueles caminhos empedrados e corpos  putrefactos. Quem me via fugia, mas eu nunca fiz mal a ninguém. O meu trabalho era ajudar os perdidos a encontrarem o caminho para a próxima vida.

Vida? Será que há vida a seguir?

Estava tudo bem até que eles vieram. Na surdina da madrugada, cobriram todo o meu espaço com terra. Deixaram-me uma rede de túneis e calabouços. Reclamei apenas uma vez e fecharam-me neste buraco!

Ao menos esqueceram-se de um pequeno espaço no teto por onde entra uma leve brisa. A única coisa que me manteve vivo aqui em baixo foi a esperança de saber que no meio da escuridão ainda havia uma luz. Esperei por algum tempo, mas ninguém vinha. E nem valia a pena chamar por eles porque ninguém ouvia. É que nem sequer aqueles que eu tão solenemente ajudei voltaram para saber de mim. Todos eles foram encaminhados para a próxima etapa da morte. Se é que havia uma… Até que eu os ouvi. Gritos de medo, de pavor. E soavam cada vez mais próximos. Ouvi imensas suplicias, uma voz grave e alta pedia socorro. Mas calou-se logo após um bate metálico.


TUM.

E alguma coisa caiu aqui em baixo. Aproximei-me com os meus dois olhos dourados e vi: era uma cabeça! Os olhos castanhos revirados, a carne flácida, a boca aberta com falta de dentes e o cabelo despenteado… era a cabeça mais linda que vi na vida! Então fiz a coisa mais certa a fazer: consumi aquela cabeça. Enrolei o meu corpo espectral em volta dela e tornei-a parte de mim.

Percebi que um dos humanos olhava pelo buraco e que me tinha visto, mas acho que se assustou porque fugiu logo depois. E agora, perguntam? Agora que eu quero sair daqui mais do que antes. Quero conhecer o corpo a quem a cabeça pertencia e quero ajudá-lo a ir para onde deve ir.

Finalmente ganhei a força de que precisava e pulei pela abertura no teto. E o que eu vi… deixou-me sem palavras: homens a queimar outro homem. O que terá ele feito de tão horrível para merecer aquele castigo? E o cavalo que ardia ao seu lado? Que tipo de humano é capaz de fazer algo assim a um animal?! A minha raiva era enorme, mas tinha de me controlar. Reparei em 6 crianças. Com roupas velhas e sujas, choravam que até soluçavam. Não faço ideia de quem eram, mas talvez conhecessem aquele humano?

Quando o fogo se extinguiu, aquelas crianças aproximaram-se das cinzas e semearam uma pequena semente naquele lugar. Achei estranho e não percebi a razão, mas à medida que os dias passaram, cresceu ali uma enorme oliveira. Era tão grande que parecia um salgueiro. E então, aproximei-me e conheci-o. Dinis era o dono daquela cabeça. Olhou para mim com a cara marejada de lágrimas. Estava completamente perdido, o coitado. Espera… vocês sabem que quando eles morrem, o espírito mostra-os inteiros, não sabem? Faltava a cabeça no corpo, mas o fantasma estava inteiro!

Pediu-me ajuda.

Os humanos são estranhos, em nenhum momento ele se importou com a cabeça perdida. Só queria ajuda para encontrar um objeto. Mas onde é que isto já se viu? Um objeto?! Perdeu a cabeça! Literalmente.

Ainda pude assistir a mais um milagre.

Os seus 6 irmãos voltaram, ainda mais desnutridos, roupas gastas e rasgadas… Penso que talvez a morte do irmão mais velho tenha colocado a vida deles em risco. As crianças aninharam-se perto das raízes da árvore e assim ficaram. A sério, não fizeram mais nada! Deixaram que o tempo se encarregasse de as levar! Ou melhor, de as trazer, porque depois quem teve mais trabalho fui eu. Finalmente. Mais trabalho para mim! Eu é que estava feliz no meio disto tudo. Mas como tudo o que é bom acaba depressa, a minha energia também se esgotou. Verdade seja dita, eu nem sabia ao certo o que tinha de fazer agora, já estava destreinado do meu serviço. Fechei os olhos e dormi por alguns anos.



*


Quando acordei, quase tudo tinha mudado. A árvore continuava ali, enorme, e ainda com os corpos das 6 crianças por entre as suas raízes. Em volta haviam agora várias casas. Não sei quem são os doidos que escolhem viver em cima de um antigo cemitério. Será que eles sabiam dessa informação? Mas o ambiente era estranho. Os vivos penduravam morcegos de papel nas árvores e deixavam abóboras na calçada. Não percebi, mas segui o meu caminho.

De repente, encontrei-a.

Era uma rapariga diferente de todos os outros humanos. Não sei explicar, ela era diferente! E era como se já a tivesse visto antes. Talvez num sonho? Ou numa vida passada? Decidi segui-la. E devo dizer que ela se relaciona com pessoas muito estranhas. Aquele humano que está mais tempo ao pé dela realmente importa-se muito com ela. O resto que aparece, nem por isso. Por exemplo, neste instante ela está em frente a um monstro de metal onde um humano alto lhe dá um frasco com líquido dentro em troca de umas moedas. Ele olha para ela com uma expressão medonha, parece que a quer comer.

Os humanos fazem isso? Comem-se uns aos outros? De qualquer forma, ela parece-me ser de confiança. Vou tentar falar com ela.




*


Na noite do dia seguinte foi a primeira vez que eu consegui contacto. Estava eu próximo de umas abóboras com umas caras amorosas quando ela apareceu. Não sei se já vos disse, mas de entre todos os humanos que eu conheci, ela era linda. Completamente perfeita. Embora desta vez estivesse com uns desenhos estranhos na cara, parecia que tinha desenhado uma caveira…

Enfim, consegui que ela me seguisse e levei-a por entre os outros humanos fantasiados até à árvore. Ela entrou atrás de mim numa das aberturas escuras e consegui guiá-la até ao Passado. A expressão na cara dela era maravilhosa! Estava tão confusa, coitada. Eu também estaria se tivesse passado por dentro de uma árvore e saído pelo outro lado para encontrar um campo deserto onde antes estava a minha casa. E foi assim que ela descobriu o fim do outro humano… na primeira pessoa. Foi agarrada e arrastada para a máquina da morte. Gritava, mas ninguém se importava. E a lâmina caiu, apesar de todos os seus suplícios. A cabeça rolou para um lado enquanto o relicário que trazia ao pescoço caiu por terra. Incendiaram o corpo e o fogo rapidamente subiu aos céus. Quando as cinzas e os ossos se espalharam pelo chão e todos os aldeões se foram embora, as 6 crianças aproximaram-se e semearam uma pequena semente no meio das cinzas. A árvore cresceu e ficou enorme – tal como já vos contei – e, após vários dias pautados pelas voltas do sol e da lua, as crianças voltaram e dormiram por entre as suas raízes.

Fechei os meus olhos e, ao abri-los de novo, estávamos de volta àquela rua cheia de pessoas fantasiadas. A rapariga, nervosa, não parava de chorar enquanto passava as mãos pelo pescoço. Decidi que era a hora de se encontrarem. Algo em mim dizia que ela iria aguentar. Por isso corri. Fugi por entre os arbustos, para longe dos olhares curiosos, seguido de perto pela rapariga bonita. No escuro quase que apenas se viam os meus olhos dourados. Voltei a ser uma sombra e subi pela vegetação escura até chegar à altura do humano e transformei-me nele para que eles pudessem conversar.


– Tu és…? – questionou a rapariga.

– Dinis. Fui acusado de ser um bruxo, decapitado e queimado na fogueira. Se não fosse por aquela semente que os meus irmãos plantaram eu não estaria aqui hoje.

– O que fizeste àquelas pessoas? – questionou, muito confusa com os acontecimentos. Dinis respondeu-lhe repleto de ódio.

– Curei a gripe do homem que me condenou. Usei ervas medicinais e, por isso, todos acharam que tinha feito algum tipo de bruxaria.

– E aquelas crianças? Eram teus irmãos?

– Sim. Ficaram sozinhos depois que fui assassinado. Mas agora estão comigo. – diz, um pouco mais em paz.

Não há um momento de alegria, pois não? Quando ela finalmente começava a sorrir, mesmo que não fosse de felicidade, alguma coisa tinha de acontecer, certo? Era aquele homem de antes, o mesmo que recebeu as moedas dela… Ele chegou quando ouvimos galhos partir a alguns metros. Recuei por entre as folhagens bem a tempo de não ser visto por aquele homem.

– Está tudo bem? – indagou ele.

– O que fazes aqui? Estás a seguir-me? – a rispidez com que falava disfarçava o medo.

Sem sequer responder, o homem entregou-lhe um lenço para que secasse as lágrimas.

– Se eu passar isso na cara agora vou tirar a maquilhagem toda.

– Já está a ficar toda borrada de qualquer maneira. – respondeu-lhe, trocista.

A rapariga passou o lenço com cuidado, embora algo contrariada.

– Seguiste-me até aqui?

– Não me leves a mal, mas pensei que tinha acontecido alguma coisa.

– Não aconteceu nada. Tenho de voltar para perto dos meus amigos. – disse a tentar fugir-lhe, mas foi agarrada.

– Espera. Não queres ficar só mais um pouco? Aqui ninguém nos incomoda.

A rapariga afastou a mão com violência quando ele tentou aproximar-se.

– Vê se ganhas juízo. Eu só tenho 16 anos e não sou desse tipo de gaja! – gritou-lhe a rapariga.

Aquela negação deixou-o irritado. Parece que vai acontecer alguma coisa. Será que devo intervir?

– Mas tu achas mesmo que tens algum tipo de palavra aqui? – questionou o homem.

O nervosismo aumentou. Trémula, não conseguia sequer falar. Já ele, violento, agarrou-a e empurrou-a contra uma parede velha.

– Tu não sais daqui tão cedo.

Sem força para se libertar, manuseada por alguém que, definitivamente, não fez aquilo pela primeira vez, viu-se obrigada a deixá-lo aproximar-se.

– Deixa-me, por favor! – suplicou.

Os lábios quase se tocaram quando um relinchar assustador o interrompeu. Assustado, o homem largou-a e afastou-se alguns passos para o lado.

Era o cavalo de Dinis, em levade, montado por um cavaleiro sem cabeça e o gato de Olhos Dourados ao ombro. Aterrorizado por aquela visão, o homem foi atingido pelo casco de uma pata do cavalo que lhe feriu toda a face esquerda e a boca.

O cavalo pousou e o homem cuspiu sangue no meio das ervas. Ao olhar para cima, além de toda a imponência do cavalo e do misterioso e inquietante cavaleiro sem cabeça, viu o gato, calmo e sereno, olhar-lhe como se pudesse ver dentro dos seus olhos. Em completo terror, fugiu sem olhar para trás. O gato colocou-se no pescoço decepado e tornou-se em Dinis.

– Obrigada. – agradeceu a rapariga, aliviada.

– Por favor… liberta-nos. – Pediu Dinis antes virar o cavalo e galopar pela vegetação.


*


Era uma manhã fria quando aquela humana saiu novamente de casa e eu pude ouvir os seus pensamentos: sentia-se sozinha. É muito engraçado como nós, seres especiais, percebemos como eles se sentem, mas eles não conseguem perceber nem a nossa presença. A rapariga tirou o relicário do bolso. Finalmente ela percebeu o que tinha de fazer. E aquele humano que eu tenho vindo a ajudar também percebeu que não pode continuar aqui por muito mais tempo. Tudo se encaixa quando tem de ser.


*


O som do rebentar das ondas era trazido pela maresia quando a rapariga se aproximou da beira da falésia. A vista para o Oceano Atlântico estava de tirar o fôlego, era água a perder de vista. Atrás dela, Dinis, os seus irmãos e o cavalo esperavam pela liberdade. Já o gato, esse assistia no ramo de um pinheiro acima das suas cabeças. Quem diria que toda esta situação seria resolvida com um objeto tão pequeno? A rapariga segurava o relicário na mão.

– É o que está aqui dentro que vos está a prender aqui? – questionou.

– Sim. – assentiu, sem intensão de desenvolver a resposta.

Sem sequer tentar abri-lo, a rapariga atirou-o para o mais longe que conseguiu. Quando o relicário atingiu a água, os espíritos começaram a desfazer-se em cinzas.

– Obrigado.

A rapariga sorriu enquanto via as cinzas serem levadas pelo vento, a transportar aqueles espíritos para a próxima fase.

Finalmente, este trabalho terminou. Estou triste. Eu gosto de trabalhar, é o que me faz sentir que tenho uma finalidade neste mundo. É uma pena para eles, sim, que têm de morrer para eu puder ser feliz. Mas eu vivo bem com isso.

O gato desceu da árvore quando o último raio de sol desapareceu no horizonte, e a rapariga deixou-se ficar mais um pouco.

Só mais um pouco.


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