…nascem as Estrelas.
Desde há milhares de anos, os eclipses solares foram muito mais do que fenómenos astronómicos. Se hoje em dia temos uma explicação científica para o breve desaparecimento do Sol, os povos antigos não tinham a mesma explicação… E assim nasciam as lendas que tentavam dar significado àqueles poucos minutos em que o dia se tornava noite. Desde sinais dos deuses, batalhas entre criaturas sobrenaturais ou acontecimentos capazes de alterar a ordem do mundo, tudo era possível.
Mas nem todas as histórias nasceram do medo.
Na tradição Taitiana, o eclipse era visto de uma forma muito mais bonita: o Sol e a Lua, dois amantes condenados a viver separados, finalmente conseguem encontrar-se por breves instantes.

A lenda
O Sol e a Lua percorrem eternamente caminhos diferentes. Um pertence ao dia. O outro pertence à noite.
Estão separados durante a maior parte do tempo, cada um a cumprir o seu papel no céu. O Sol ilumina a Terra durante o dia enquanto a Lua aparece quando a escuridão chega.
Mas existe um momento extraordinário em que os seus caminhos se cruzam.
O eclipse solar.
É nesse instante, em que a Lua passa diante do Sol, que os dois amantes conseguem finalmente encontrar-se.
O mundo deixa de receber a luz do Sol e o dia escurece, o céu transforma-se num cenário diferente de tudo aquilo que normalmente conhecemos.
Na tradição Taitiana essa escuridão não representa a morte da luz. Representa a intimidade de dois amantes que finalmente deixam de estar separados. Tão envolvidos ficam nesse encontro que se perdem na intensidade do momento e, desse encontro nasce algo novo: as estrelas.
Quando o Sol e a Lua finalmente se separam e regressam aos seus lugares no céu, as estrelas permanecem para iluminar a sua ausência.
E assim, cada eclipse pode ser imaginado como um reencontro breve entre dois amantes celestes, um encontro que deixa para atrás pequenas marcas de luz.
O eclipse é um Encontro
Esta é uma interpretação interessante porque transforma aquilo que poderia parecer um acontecimento assustador numa história sobre separação, encontro e criação.
O eclipse acontece precisamente porque, vistos da Terra, o Sol e a Lua parecem ocupar o mesmo lugar no céu. Cientificamente, sabemos que a Lua passa entre a Terra e o Sol e bloqueia temporariamente a sua luz.
Mas para os antigos, a explicação podia ser completamente diferente. E é aqui que a lenda ganha vida.
O eclipse não é uma luta, não é uma criatura a tentar devorar o Sol, não é um castigo…
Esta ideia aproxima o fenómeno astronómico de uma das imagens mais antigas presentes na mitologia de muitas culturas: a criação como consequência da união de duas forças.

Uma história diferente das outras
A lenda Taitiana destaca-se ainda mais quando a comparamos a outras explicações tradicionais para os eclipses solares. Em muitas culturas, o desaparecimento do Sol era encarado como uma ameaça.
Na tradição Hindu, por exemplo, o eclipse está associado a Rahu, uma entidade cuja cabeça tornou-se imortal. Rahu persegue o Sol e a Lua e, ocasionalmente, consegue engoli-los. Como não possui corpo, os astros escapam novamente.
Em outras tradições, a ameaça assume formas diferentes. Criaturas monstruosas, dragões ou outros seres sobrenaturais tentam atacar ou consumir o Sol. A lógica é semelhante: algo acontece ao Sol e é necessário explicar o porquê.
E a resposta Taitiana segue um caminho completamente diferente. Em vez de perguntar “O que está a atacar o Sol?”, aqui perguntam-se: “Quem está finalmente a conseguir chegar até ele?”

O Sol e a Lua: amor, conflito e reconciliação
Entre os Fon, povos atualmente distribuídos pelo Benim, Nigéria e Togo, existe uma tradição segundo a qual Mawu e Lisa (Sol e Lua, respectivamente), unem-se durante o eclipse.
Nas tradições germânicas existe também a imagem de um Sol feminino e de uma Lua masculina, ligados por uma relação conjugal. O eclipse acontece quando conseguem aproximar-se.
Existe ainda uma outra interpretação completamente diferente: entre os Batammaliba, do Benim e do Togo, o eclipse era associado a um conflito entre o Sol e a Lua. E as pessoas tentavam incentivá-los a acabar com a luta e a reconciliarem-se. Desta forma, o eclipse tornava-se num momento de união e resolução de antigas disputas.
São histórias diferentes, mas todas partem do mesmo encontro. E cada cultura encontrou a sua própria maneira de explicar o que acontece nesse encontro.
Quando a ciência encontra a lenda
Atualmente sabemos exatamente como e porque acontece um eclipse solar: a Lua passa entre a Terra e o Sol e, quando os três astros ficam suficientemente alinhados, a sombra da Lua percorre uma determinada região da superfície terrestre. Mas saber como acontece não elimina a beleza de nos perguntarmos o que esse momento poderia significar.
Talvez seja por isso que os eclipses tenham criado histórias tão diferentes em lugares tão distantes. O céu era o mesmo, mas cada povo olhava para ele através das suas próprias crenças, medos e esperanças.

Existem muitas outras lendas ligadas aos eclipses. E todas merecem o seu espaço na nossa cultura. Podem encontrar muitas mais em vários livros e, claro, na internet. Por favor, não deixem as lendas perder a sua força!

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Fontes Textos:
eclipses.ign.es
science.gsfc.nasa.gov
nationalgeographic.com
Fontes Imagens:
sic.pt
tempo.pt
Nota: A versão taitiana apresentada neste artigo é baseada em compilações modernas de mitologia e astronomia que registam o eclipse como o encontro amoroso entre Sol e Lua. Outras tradições polinésias possuem interpretações diferentes dos eclipses, incluindo histórias em que os astros são devorados por uma divindade, pelo que não devemos assumir que esta narrativa representa uma explicação universal da cosmologia tradicional polinésia.